Trabalhador Empregado e Endividado: Renda Cresce, Dívidas Assalam Famílias em 2026

Mercado de Trabalho em Contraste: Renda Cresce, Mas Endividamento Familiar Persiste
O recente crescimento do mercado de trabalho no Brasil, caracterizado pelo aumento da renda e do número de vagas de emprego, não tem se traduzido em alívio financeiro para a maioria da população. Um estudo divulgado recentemente pelo Centro de Liderança Pública (CLP) revela que uma parcela significativa dos ganhos obtidos com o trabalho está sendo destinada a dívidas, juros e parcelas, reacendendo a preocupação com o endividamento das famílias e colocando-o novamente como um ponto central na política econômica do país.
O documento apresenta um quadro de contrastes. No trimestre encerrado em janeiro de 2026, a renda média real alcançou um recorde histórico, atingindo R$ 3.652, enquanto a massa de rendimento totalizou R$ 370,3 bilhões, representando o maior nível já registrado na série histórica.
Paralelamente, a população ocupada atingiu a marca inédita de 102,7 milhões de pessoas. No entanto, dados do Banco Central (BC) indicam que, em fevereiro de 2026, as dívidas das famílias ascenderam a 49,9% da renda, igualando o pico histórico de julho de 2022.
O comprometimento da renda também aumentou, passando de 29,5% para 29,7%, o que reflete a continuidade dos gastos por parte das famílias e um montante de quase um terço dos ganhos já está comprometido com dívidas. Daniel Duque, head de Inteligência Técnica do CLP e autor da nota, enfatiza que essa situação transforma um problema macroeconômico em um desgaste político, observando que “o trabalhador está empregado, mas endividado.
O salário cresce, mas a parcela cresce junto”.
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Crédito Consignado e o Desafio do Endividamento
A tentativa de aliviar o peso das dívidas do trabalhador tem sido impulsionada pelo crédito consignado privado. Em março de 2026, as concessões para trabalhadores do setor privado saltaram 52% em relação a fevereiro, atingindo R$ 10,864 bilhões, impulsionadas pelo novo modelo do Crédito do Trabalhador.
Segundo Duque, a promessa do novo consignado era “defensável, em tese”, pois permitiria migrar as dívidas de juros mais altos para outras, com linhas mais baratas, com desconto em folha, menor risco para os bancos e taxas inferiores às de modalidades como cartão e crédito pessoal.
Contudo, o Banco Central (BC) já havia alertado para a necessidade de cautela neste modelo após analisar o comportamento dos tomadores em 2022. O relatório constatou que, em vez de apenas substituir dívidas, o consignado elevou o estoque total de passivos, com um aumento médio de endividamento de cerca de R$ 5 mil após a contratação.
O comprometimento da renda, que era de 28% antes do empréstimo, saltou para 33% no mês seguinte e chegou a 38% após 11 meses.
Juros Altos, Dívida Crescente e Limite Fiscal
O CLP argumenta que trocar dívidas caras por outras um pouco menos caras — estratégia que o governo deve tentar repetir com o programa Desenrola 2 — não resolve o problema de fundo. Juros altos e a pressão sobre o limite fiscal da economia brasileira contribuem para a situação.
O atual governo impulsionou a demanda com um crescimento real de 12,9% na despesa primária federal, sustentando a renda e o crédito bancário impulsionando o consumo. A consequência é a pressão inflacionária que leva a juros elevados.
Em junho de 2025, o Banco Central elevou a taxa Selic em 15% ao ano e deixou estacionada neste patamar — o maior desde julho de 2006 — até março deste ano, quando foi a 14,75% e, agora, está em 14,5%. Como reflexo, a taxa média de juros do crédito livre para pessoas físicas estacionou no patamar punitivo de 61,5% ao ano, impulsionando a inadimplência das famílias para 5,3% (uma alta de 1,4 ponto percentual em 12 meses).
O limite fiscal também se aproxima, alerta o CLP, com projeções do Ipea de 79,6% do PIB no fim de 2025, 83,7% em 2026 e 87,0% em 2027.
Recomendações do CLP
Para solucionar essa questão, o CLP defende controlar o crescimento das despesas públicas, para contribuir com o ambiente de queda de juro, e frear o impulso de crédito estimulado pelo governo sobre famílias já excessivamente comprometidas. A nota técnica sugere ainda medidas mais ambiciosas, como a venda de ativos públicos subutilizados para abater a dívida e abrir espaço para investimentos reais. “O ciclo de gasto, crédito, consumo e emprego comprou tempo, mas não comprou sustentabilidade.
Agora, a conta chegou”, afirma Daniel Duque.
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